sábado, 21 de fevereiro de 2009

Aquela tarde de Julho


Em 1978, podiam demorar-se duas longas horas em transportes públicos para percorrer uns míseros 50 km. Assim, e como nesse ano dava aulas numa escola plantada no meio do nada, a minha mãe teve que tomar a difícil decisão de me deixar com uma ama, quando eu tinha apenas três meses de vida.

Foi essa decisão que determinou que a minha infância havia de ser a mais feliz de que há registo. A L. havia de ser a minha “outra” mãe, como eu mais tarde tentei explicar aos meus colegas de escola que não percebiam como é que eu podia ter duas mães, quando todos eles, comuns mortais, tinham apenas uma.

A L. ensinou-me a andar, a comer, tentou explicar-me que apesar de não fazer muito sentido lógico, eu devia dizer Mónica em vez de Móquina e máquina em vez de mánica. Contou-me histórias mágicas dos seus tempos de criança, como a daquela vez em que levou uma pedrada da irmã. E depois, dos anos em que trabalhou em Lisboa numa casa de príncipes e princesas, cujo dono e senhor, percebi anos mais tarde, era o então Ministro da Justiça, Antunes Varela, de quem ela gostava muito.

Apesar de não ser uma vianense de nascimento, a L. mostrou-me pela primeira vez cada recanto da minha cidade e disse-me que era a mais bonita do mundo. Eu acreditei. Foi também a L. que me acompanhou em infindáveis e misteriosas visitas guiadas pelo tribunal, que me levou às salas de julgamentos, às celas prisionais e à sala de autópsias. O marido era porteiro do tribunal e a L. carregava sempre, no bolso direito da sua bata às flores, um grande e pesado molho de chaves que abria qualquer porta daquele mundo que me fascinava.

A L. tinha três filhos mais velhos que eu, então adolescentes. Nunca senti que ela tivesse menos amor por mim do que por eles. Ainda hoje me rio quando penso que se alguma coisa corria menos bem, ela presumia sempre que a culpa era de algum deles, nunca minha.

Os anos passaram e a L. nunca deixou de ser a minha “outra mãe”. A melhor pessoa que conheci até hoje, sempre cheia de palavras doces, de amor, de compreensão, de histórias e confidências, de chás de frutos às cinco da tarde, de memórias, de torradas e café, de risos e lágrimas.

Há sete meses, sem avisar, a L. partiu da minha vida. E não há um dia que passe em que eu não sinta que uma parte de mim partiu com ela, naquela tarde de Julho.

2 comentários:

  1. História bonita, apesar de estar envolta em saudade e tristeza. As recordações ficam connosco para sempre, e certamente que a L. estará orgulhosa por ter sido a tua outra "mãe"

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